Íamos eu, o Victor Hugo e o "Chinês" a passar no Largo da Misericórdia, em Setúbal, quando damos com dois gajos a tocar guitarra, com as caixas das ditas à frente para as pessoas deixarem uma moedinha. Coisa inusitada em Setúbal no início dos anos 80: alguém a tocar na rua para receber dinheiro sem ser cego. Só nos filmes ou contado por alguns que já tinham feito um Interrail ou ido à boleia às vindimas em França.
"É o Jorge Palma, pá!", diz o Victor Hugo. E eu e o Chinês: "WTF?! Quem é esse gajo, o Jorge Palma?!". "É pá, não conhecem o Jorge Palma?! É dos melhores músicos portugueses, compositor, tipo o Bob Dylan", e o caralho, "só me dou com ignorantes" e não sei quê.
E ali ficámos especados a ver o concerto unplugged do tal do Palma e do outro, desconhecido, a expensas da erudição do Victor. Uma actuação para três (!), deve ter sido a plateia mais curta da sua carreira. Acabado o concerto, sem grande cachet recolhido, ficou ali a falar connosco, três putos com 15/16 anos, ele já homem batido. Disse que se calhar ia voltar para França ou Inglaterra, que lá conseguia viver da música e até ganhava dinheiro na rua ou no metro, e por aí fora. E ainda esperou mais um bocado enquanto o Victor Hugo, que morava ali ao lado, na Luísa Todi, foi a casa buscar 180 paus para comprar um vinil que ele tinha ali na "banca" improvisada, salvo erro, o Qualquer Coisa Pá Música.
E 'prontes', foi assim o nosso encontro imediato do 3.º grau com Jorge Palma, no tempo em que a baixa da cidade tinha uma hora de ponta pedonal com milhares de operários da zona industrial, despejados pelas camionetas da Rodoviária Nacional ao final da tarde mas nenhum com tempo para ouvir um tal de Jorge Palma cantar coisas.
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"Ele andava por aí, como tu e eu andamos, queimando o cigarro, queimando os nervos"
