O homem das capas do Zeca

 


 Faleceu José Santa-Bárbara, e com ele levou a dúvida que me "atormenta" desde 1983: se o da esquerda, na imagem, por ordem de arrumação que é a cronológica, tem alguma coisa a ver com o da direita. 

 O da esquerda, de seu nome Heróis do Mar, é de 1981, sai na chamada "normalização democrática" da sociedade portuguesa, ainda na ressaca da revolução de 1974. Primeira estrofe do hino nacional, a primeira coisa que nos fica logo quando o aprendemos a cantar, estética new romantic à la portuguesa, posse marcial, epopeia dos descobrimentos, "enquanto as armas descansam", na letra de Saudade, o oposto dos gigantescos murais, a evocar a revolução e o poder popular, que ainda se pintavam nas paredes das cidades.

 O da direita, Como se Fora Seu Filho, Zeca Afonso em 1983, A Nau de António Faria, o pirata na Peregrinação de Mendes Pinto, aquele que desmente a construção romanceada, inócua, incolor e indolor, que foi a História de Portugal de Salazar, a da epopeia dos descobrimentos. E o País Vai de Carrinho, "os meninos das avenidas", as avenidas de onde eram originários os Heróis do Mar, os "meninos" que se podiam dar ao luxo de ter mota no Portugal miserável pré CEE, a mota da roda traseira a maltratar a cruz de Cristo, nas velas das caravelas, na capa do disco dos Heróis do Mar.

 "Qual é a tua ideia, o que é que pretendes?", perguntava, "Ouve os versos", respondia o Zeca, disse uma vez em entrevista José Santa-Bárbara a propósito do processo criativo. Eu acho que ouvia mesmo, com ouvidos de ouvir.

 Faleceu José Santa-Bárbara, o da capa de Cantares de Andarilho, o da capa de Contos Velhos, Rumos Novos, o da capa de Traz Outro Amigo Também, o da capa de Cantigas do Maio, o da capa Eu Vou Ser Como a Toupeira, o da capa de Venham Mais Cinco.

 Faleceu José Santa-Bárbara, o autor de um dos melhores logotipos de sempre em todo o mundo, aquele que ainda hoje é visível em todos os comboios da CP.