A propósito da prestação de Nick Cave nos NOS Alive e antes que se faça tarde ou que morra ou que me dê o alzheimer e nunca mais ninguém sabe disto, o meu encontro imediato com Nick Cave, Londres, ano de 1997:
Andava eu com o C. nas feiras internacionais de vinil para coleccionadores, resumidamente, comparávamos a 100 paus na Feira da Ladra em Lisboa, vendíamos a 400 libras em Londres ou a 50000 liras italianas em Milão.
Tínhamos feito, com proveito jeitoso, a feira de Londres no Horticultural Halls, o sítio onde foi filmado o comício do filme The Wall, do álbum homónimo dos Pink Floyd, quando os gajos começam a fazer um X com os braços cruzados, gesto depois pirateado pelos fãs do Xutos.
Tirámos a tarde de domingo para ir até Camden ver a fauna e a flora. Numa esquina estava um bife com um gira discos manhoso alimentado por uma bateria de automóvel a vender vinil italiano "contrafeito".
Os italianos são os reis mundiais da contrafação, basicamente uma banda vai tocar a Itália, o gajo da mesa grava o concerto à socapa, posteriormente passam aquilo a vinil, arranjam uma foto qualquer do artista para a capa, et voilá, "fulano de tal ao vivo não sei onde". Tinha um Nick Cave ao vivo em Roma, coisa que obviamente não existe. Ouvimos, tinha boa qualidade, regateámos o preço, comprámos.
Ao final do dia, já lusco-fusco, a subir a rua, a caminho de apanhar o metro para Victoria, onde estávamos hospedados, começo a ver, a descer, na nossa direcção, um gajo com um casaco de cabedal preto até aos tornozelos, gola levantada, de mão dada com uma loira vestida de leopardo, em cima de uns stilettos, que a faziam parecer ter dois metros de altura.
Eu para o C., "Meu, é o Nick Cave!", o C., "Foda-se, pois é!", e eu, "Já está! O gajo vai autografar o vinil e isto é uma mina do caralho! Um disco que não existe autografado pelo próprio!".
O Cave a descer a rua, nós a subirmos, quando já estou cara a cara com ele, "Excuse me, are you Nick Cave?!", e o gajo, "Why, are you a cable driver?", e dito isto desata a fugir rua abaixo, pelo meio do trânsito, com a loira pela mão, os carros a travarem e a buzinarem, a loira toda desengonçada em cima dos stilettos, e nós parados no passeio a olharmos um para o outro, "WHAT THE FUCK???".
E assim se perdeu a oportunidade histórica de ter um vinil assinado, que oficialmente não existe na discografia do ilustre. Punk, punk, mas calma aí.
Nunca mais o vi até hoje, no passeio, subentenda-se.
[Imagem de autor desconhecido]
